Solar (dos Abacaxis) celebra 10 anos com a maior exposição de sua trajetória
No último ato das comemorações pelo seu aniversário de dez anos, o Solar inaugura “Irradiar: para construir instituições da gente”, no dia 6 de dezembro. A mostra reúne cerca de 40 trabalhos de mais de 30 artistas e ocupa integralmente os três andares de sua sede na Rua do Senado, no Centro. O projeto marca ainda um novo ciclo do instituto, que lança seu projeto de rebranding — agora atende apenas pelo nome Solar — e abre ao público sua primeira Sala de Leitura, ampliando o programa educativo e compartilhando o acervo inicial que orienta suas pesquisas.
Fruto da curadoria de Bernardo Mosqueira, Matheus Morani e Camilla Rocha Campos, a coletiva levanta perguntas como: “Por que fazemos instituições de arte?”, “Que papéis elas cumprem na vida coletiva?” e “Como imaginar formas institucionais que sejam, ao mesmo tempo, críticas, generativas e comprometidas com a liberdade coletiva?”. A exposição não é um inventário, é um dispositivo curatorial que articula peças, documentos e projetos para mapear práticas instituintes e lembrar que instituições são processos, pactos e acordos sociais.
“A exposição faz parte do nosso programa de dois anos investigando a liberdade e pensa a relação entre arte, institucionalidade e liberdade — formas de fazer instituição a partir de trabalhos de artistas, sobretudo nos campos da crítica institucional, da imaginação institucional e da construção institucional”, explica Bernardo Mosqueira, diretor artístico do Solar. “O sistema institucional que recebemos é falho e merece ser criticado. O que desejamos para as próximas gerações é entregar instituições melhores. Essa é a base da exposição.”
O percurso foi projetado para reimaginar a própria arquitetura da sede, onde salas, escadas, fachadas e pátios funcionam como camadas de um organismo vivo, e várias obras extrapolam os limites do edifício para dialogar com a rua — gesto que expande o território institucional e transforma a visita em ato público. A curadoria organizou a exposição a partir de núcleos que articulam memória, institucionalidade crítica, imaginação e práticas de coletividade.
Uma das frentes reúne projetos de museus imaginados por artistas. O recorte inclui trabalhos que inventam ou reencenam instituições, como na obra de Emanuel Araújo sobre o Museu Afro de São Paulo; documentos que recuperam a história e as propostas do Museu de Arte Negra a partir da obra de Abdias Nascimento e o MUTHA — Museu Transgênero de História e Arte, de Ian Habib. Em outra direção, aparecem projetos que acionam a memória afetiva e coletiva, como o “Museu de la Madre” (MAMA), de Paulo Nazareth, que convida o público a desenhar as próprias mães — biológicas, espirituais e ancestrais — como gesto de invenção de memórias e pertencimentos. A seleção também incorpora gestos de leitura crítica do espaço museológico, caso de “Parede Niemeyer”, de Ana Maria Tavares. A partir desses trabalhos, a mostra coloca em evidência a ideia de que museus podem ser ferramentas de reparação, escuta e reescrita de narrativas.
O núcleo dedicado a representações de poder e visualizações institucionais transforma estruturas abstratas em formas sensíveis que o visitante pode ler, atravessar e discutir. Nele, dialogam uma obra de Vik Muniz, diagramas de Luiza Crosman, grafismos de Yhuri Cruz sobre ciclos de poder e influência, e o grande diagrama de Ricardo Basbaum — diretamente relacionado à prática institucional do Solar. Aqui, a representação do poder vira matéria expositiva, convocando o público a identificar linhas de responsabilidade, modos de decisão e possíveis formas de rearticulação.
Já o trecho que aborda memória, violência e arquitetura do Estado revisita o incêndio do Museu Nacional e suas implicações para a preservação do patrimônio, com obras de Anna Bella Geiger, Gala Porras-Kim, Gustavo Caboco e Família Wapichana. Outro recorte do núcleo aborda Brasília e as instituições democráticas, incluindo reflexões sobre os ataques de 8 de janeiro e a forma como a arquitetura e o urbanismo codificam poderes e exclusões.
A seção dedicada a educação, coletividade e cuidado institucional destaca práticas pedagógicas e coletivas, apontando para modos de atuação institucional que priorizam a escuta, a formação e a co-autoria com as comunidades envolvidas. Essa linha reforça a ideia do Solar como lugar de práticas vivas — não apenas de exibição.
A mostra reúne peças históricas, obras inéditas e projetos criados especialmente para o Solar, formando um corpo que articula passado, presente e futuro da instituição. Um dos eixos fundamentais é a remontagem de “Faça você mesmo: território e liberdade” (1968), de Antônio Dias — a primeira obra exibida pelo instituto, há uma década. Agora pensada para ocupar a rua, ela se transforma em gesto de expansão simbólica do território institucional, reafirmando a vocação do Solar de tensionar a fronteira entre o que está dentro e o que está fora.
Outros destaques são a pintura inédita de Marina Perez Simão, criada especialmente para a exposição, e o grande painel de Marcela Cantuária, que ocupa uma das salas centrais, povoado por mulheres latinas e caribenhas. Já o novo trabalho de Ricardo Basbaum estabelece uma ponte entre a prática institucional do Solar e sua inserção no território do Rio de Janeiro. O artista apresenta um grande diagrama relacional que une práticas internas, redes globais e movimentos sociais, transformando a instituição em um dispositivo que pode ser lido, percorrido e discutido. A obra concretiza uma das perguntas centrais da mostra: “Como tornar visíveis (e negociáveis) as relações de poder, afeto e responsabilidade que estruturam uma instituição cultural?”
A seleção traz ainda obras, documentos e projetos de artistas como Abdias Nascimento, Andrea Fraser, Emanoel Araujo, Guerreiro do Divino Amor, Paulo Nazareth, Renée Green e outros. Cada um deles adiciona camadas de crítica, imaginação e construção institucional, incluindo desde museus imaginados e arquivos de práticas emancipatórias até visualizações de poder, pedagogias alternativas e gestos de invenção coletiva.
A pluralidade de linguagens — pintura, instalação, documento, performance, diagrama, arquivo — cria um campo contínuo de provocação e proposição. Trata-se de uma exposição que não apenas apresenta obras, mas ativa modos de pensar as instituições como organismos vivos, sensíveis e em permanente construção.
“Creio que seja a maior exposição já feita no Brasil sobre crítica, imaginação e construção institucional”, afirma Mosqueira. “A ambição do projeto é abrir uma perspectiva de revisão e projeção. A ideia é olhar para o que as instituições fizeram, reconhecer suas falhas e imaginar futuros possíveis”.
Participam da coletiva: Ailton Krenak, Ana Maria Tavares, Anna Bella Geiger, Andrea Fraser, Andrea Hygino, Antonio Dias, Danie Sepulveda, Edgar Calel, Emanoel Araujo, Gala Porras-Kim, Goya Lopes, Guerreiro do Divino Amor, Gustavo Caboco e Família Wapichana, Jaider Esbell, João Simões, Luiza Crosman, Luiz Philippe Carneiro de Mendonça, Lyz Parayzo, Marcel Diogo, Marina Perez Simão, Marcela Cantuária, Maxwell Alexandre, MUTHA, O grupo inteiro, Paulo Nazareth, Renata Lucas, Renato Mangolin, Renée Green, Ricardo Basbaum, Vik Muniz, Wisrah C. V. da R. Celestino, Yhuri Cruz (Prêmio FOCO ArtRio) e Yuri Firmeza.
A mostra vai até março de 2026. O Solar fica no Mercado Central — Rua do Senado, 48, Centro – Rio de Janeiro. A entrada é gratuita.