Sobre o peso que as corpas carregam: o que há em comum entre Carla Borba, Elle de Bernardini, Ana Beatriz Almeida e Paula Scamparini. Por Luana Aguiar

17/10/2020 - Por ArtRio

A ArtRio convidou alguns pesquisadores e personalidades que estão vivendo ativamente o mundo da arte – inclusive nesse confuso 2020 – para pensarem com a gente, nos ajudarem a entender, e mostrarem suas visões e ideias sobre alguns artistas, obras ou a própria atualidade.


Sobre o peso que as corpas carregam: o que há em comum entre Carla Borba, Elle de Bernardini, Ana Beatriz Almeida e Paula Scamparini.
Por Luana Aguiar

 

Os cinzas terrosos de uma pedreira desativada servem de fundo para uma estranha figura encarnada na artista. A fotoperformance “Vestido de pedra” (2012) de Carla Borba é produto da ação homônima, registrada em vídeo e realizada no distrito gaúcho de Minas de Camaquã, local que viveu no passado ciclos de apogeu econômico fruto da exploração do minério de cobre. 

Aprisionada num enquadramento pictórico e iluminada por um mormaço seco, a corpa fantasmagórica da artista está com os seios nus, usa um turbante e uma longa saia rodada. Durante a ação, ela enche os bolsos da barra de sua saia com pedregulhos que recolhe do chão; carrega um peso que a desequilibra até imobilizá-la e parece declarar, de modo surreal, o peso da culpa e da punição que uma estrutura social patriarcal impõe aos corpos, sobretudo os femininos. É essa a performance registrada pela fotografia “Vestido de pedra” exposta na feira online, pela Aura Galeria.

Elle de Bernardini também trata da noção de peso em seus trabalhos, mas estende essa ideia aos corpos não normativos. Artista transgênero, Elle explora em suas telas e criaturas escultóricas formas circulares, moles e pendentes, em diálogo com um repertório sensorial, visual e material de artistas como Hélio Oiticica, Ernesto Neto, Leda Catunda, Cristina Salgado, dentre outres

A corporalidade desejante em Elle é evidente quando a artista mostra em sua obra o peso da falta: sendo uma mulher trans, ela não se rendeu à próteses nos seios, por exemplo, assumindo essa condição de falta a qual aparece organicamente em seus trabalhos. Em “Métier” (2020), por exemplo, Elle faz referência às corpas que são transformadas para dar conta do ofício da prostituição, destino de muitas transexuais que, estigmatizadas, não encontram oportunidades profissionais distintas dos esteriótipos. “Gostaria de me tornar obsoleta”, diz a artista que é representada pela galeria Karla Osorio, consciente de uma luta social, cultural e política que parece estar só começando. 

A reparação histórica acerca do lugar das corpas pretas numa sociedade de herança escravocrata é a luta declarada de Ana Beatriz Almeida em sua fotoperformance “Onira” (2015/2020), obra que faz parte do Clube de Colecionadores do MAM Rio. Em “Onira”, a artista cria um corpo ancestral, uma entidade espiritual, para rememorar a estudante e militante negra Helenira Resende Nazareth, assassinada pela ditadura militar nos anos 70 e cujo corpo nunca foi encontrado. “É urgente recordar essa existência”, diz Ana Beatriz.

Ao lado de uma árvore Gameleira, situada na Ilha de Itaparica na Bahia e considerada sagrada por praticantes do candomblé, Ana Beatriz, que é iniciada na religião Vodoun, realiza uma ação ritual de modo a criar um corpo novo para Helenira, a “Onira”, e honrar sua ancestralidade. A fotografia de registro da ação da artista trata, assim, da complexa relação entre sagrado e sacrifício, rememorando não só Helenira, mas todas as corpas de mulheres pretas negligenciadas, oprimidas e, portanto, sacrificadas pelo Estado.

Em “Carregadoras (P.S. 02)” (2019/2020), obra também pertencente ao clube de colecionadores do MAM Rio, a artista Paula Scamparini utiliza várias versões da imagem de seu corpo nu, carregando enormes cachos de banana numa plantação. A relação corpo/paisagem aparece mais uma vez aqui, numa complexa e curiosa montagem fotográfica. 

A cena proposta por Paula trata da labuta e do peso no transporte de alimentos realizado por corpos femininos. Importante lembrar que o uso da força pela mulher em atividades cotidianas aparece em inúmeras sociedades não-ocidentais, mas quando a artista em sua obra se utiliza do recurso da repetição da imagem de seu corpo realizando tal ato e tapa seu rosto/identidade, ela se refere a um tipo de trabalho serializado e exploratório, e nos faz lembrar como a dinâmica colonial violenta os corpos.

A partir desses trabalhos, digo que empoderadas são as corpas que se assumem vulneráveis porque, enquanto humanes, somos todes finites, ao menos a carne. 

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Nas imagens: [topo] Élle de Bernardini, Métier, 2020 | GALERIA KARLA OSORIO; [abaixo do texto] Ana Beatriz Almeida, Onira, 2015/2020 | MAM RIO


Luana Aguiar é artista visual, pesquisadora e curadora independente. É Doutoranda e Mestre em Linguagens Visuais pelo PPGAV / UFRJ e Bacharel em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UERJ. Entre 2018 e 2019, foi curadora do projeto Flexões Performáticas: gênero, número e grau, no CCBB-SP; de 2016 a 2018 foi professora substituta do departamento de história e teoria da arte da Escola de Belas Artes da UFRJ. Desde 2008 desenvolve trabalho artístico com seu próprio corpo e tem sua pesquisa artística e acadêmica voltada para o erotismo e o sagrado relacionados à performance.

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