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Pausar e ressignificar as coisas: uma entrevista com a artista Laura Belém sobre o tempo em meio à pandemia

19/04/2021 - Por ArtRio

Na última semana a Galeria Athena abriu a exposição online O tempo é agora, tempo de espera, individual de Laura Belém (1974), que conta com onze trabalhos sobre papel – fotografias, colagens, monotipias, desenhos e um vídeo, produzidos entre 2017 e 2020. Depois de fazermos uma visita virtual à mostra, aproveitamos a oportunidade para fazer algumas perguntas à artista, que conversou com a gente (também virtualmente) sobre questões como o tempo, a pandemia, o papel como suporte e a natureza. As obras da exposição já estão disponíveis no ArtRio.com (aqui).

 

ArtRio: Passeando pela exposição online que está atualmente no site da Galeria Athena, fui vendo suas obras e anotando de forma meio dispersa algumas palavras que surgiam ali ou me chamavam atenção. Não se demora muito a notar que um dos termos, inclusive duplicado no título, é o eixo central: tempo.

O tempo é agora, tempo de espera parece falar sobre o momento atual e pandêmico, com todas as suspensões e incertezas que estão aqui hoje conosco, mas no qual existimos. Estou me deixando induzir pelo contexto e, bem, o formato da mostra – um viewing room virtual?

Laura Belém: O título da exposição foi pensado em relação ao momento atual, com a intenção de levantar uma reflexão sobre este momento e sobre como nos relacionamos ao tempo. Sinto que a pandemia nos leva a uma reflexão mais profunda sobre a existência e nos mostra que nada é tão urgente quanto sobreviver. Mas penso também que a incerteza é uma condição da existência humana; ela não é relativa apenas ao momento atual.

No ano passado, assisti uma linda fala do Antônio Donato Nobre, num seminário virtual promovido pela Arte Brasileiros, na qual ele lembrou que vivemos na ‘capa’ do planeta Terra – uma película de gás muito fina – e que o planeta está dependurado no nada, num ambiente que ele define como “inóspito e inconcebível”, movimentando-se a uma velocidade de 30 km por segundo. Ou seja, temos uma falsa noção de estabilidade e de que estamos no controle das coisas. O Antônio Donato chamou a atenção para o fato de que, do ponto de vista da ciência, a nossa condição é “incrivelmente frágil e ilusória”, e de que talvez por a Terra ser redonda, por ser uma esfera que pode ser percorrida sem chegarmos a um ponto final, isso nos dá a falsa impressão de uma infinitude, quando na verdade estamos sempre sujeitos ao tempo, à finitude e à fragilidade dessa capa de gás na qual habitamos. Por outro lado, ele mencionou que os astronautas que têm a oportunidade de sair do planeta e observar a Terra de fora, imediatamente têm uma virada de chave – o que ele chama de overview effect ou efeito panorama – e que, passando a compreender essa fragilidade, se voltam para uma busca espiritual ou transcendental quando retornam à Terra.

Laura Belém, Entreato I, 2020, detalhe. Cortesia Galeria Athena.

Eu penso que essa busca pela transcendência – ir ao encontro do desconhecido e de algo mais profundo, atemporal, se aproxima do campo da arte. O ‘tempo em suspensão’, que também menciono no texto da exposição, aponta para a atemporalidade da obra de arte – a obra é criada no tempo, por pessoas daquele tempo, mas sobrevive aos tempos, e por isso ela é atemporal. A obra de arte nos permite entrar em contato com artistas, sociedades e culturas de séculos atrás e ter um vislumbre do que aquelas pessoas viviam e pensavam. A arte nos permite relacionar com o mundo por outras vias que não sejam apenas as do intelecto; por exemplo, pelo sensorial e pela intuição, ou pelo o que o Donato chama de um canal cognitivo mais amplo, onde está envolvido o conhecimento do coração. A verdadeira fruição da obra de arte depende de uma pausa; de nos darmos um tempo diante da obra para de fato adentrarmos e nos relacionarmos a ela. ‘Tempo de espera’ toca um pouco nisso também, na importância da pausa, em silenciarmos a mente em uma obra de arte. E ‘o tempo é agora’ nos lembra que o tempo presente é o único que de fato existe – o passado e o futuro são impalpáveis – e que por isso é preciso extrair do presente a sua melhor potência, mesmo sob circunstâncias desafiadoras. Com isso, não estou sugerindo uma urgência das coisas, mas sim uma escuta do corpo e do nosso interior pois, com essa escuta, muitas vezes ‘extrair a melhor potência do presente’ pode significar pausar por um momento e voltar-se para dentro. Como no momento pandêmico atual – um momento de pausa e de re-significação das coisas.

Seguindo um pouco, para além do título e perpassando as citações que compõe a exposição, encontramos um momento no qual você comenta do seu trabalho como uma mescla do mundo exterior com o mundo interior. (Talvez seja essa citação que me tenha autorizado de certa forma à pergunta anterior). Nesse caso, de obras produzidas entre 2017 e 2020, há alguma mudança marcante entre como esses mundos transparecem?

Não vejo uma mudança e sim uma continuidade, um desdobramento. Essa mescla entre o mundo exterior e o interior sempre fez parte de mim, mesmo quando eu era criança. As questões sobre a existência e sobre o visível e o invisível, sobre o que consideramos ‘real’ ou ‘irreal’, sempre me acompanharam. É por isso que não consigo ser muito sucinta ao responder perguntas sobre o tempo, porque para mim esse assunto está diretamente ligado a questões mais amplas sobre a existência, sobre o que sabemos e sobre o que desconhecemos em relação à vida.

Ainda que desde o começo dos anos 2000 você venha trabalhando com diferentes linguagens, – […] “incluindo a instalação, a escultura, o desenho, a colagem, a fotografia, o som e o vídeo. Os materiais e técnicas variam de acordo com a intenção e o conceito de cada projeto.” – há aqui uma opção por um suporte, o papel, que, ao lado do tempo, parece tratado como um eixo central da exposição. Um tópico do qual tenho curiosidade vem do contraste entre a noção que destaca de que nosso agora é constituído por nossa memória, passado e potência de futuro, e esse outro eixo, o papel, que parece determinado por uma brevidade. Isso também chega a você como um contraste?

Na verdade, o que escrevi é que, ao afirmar o agora, não descarto a memória do passado ou o sonho por um futuro melhor, mas chamo a atenção para o momento presente, que é o único tempo que de fato ‘existe’ e no qual podemos atuar. Ou seja, falo da brevidade do instante e de sua potência, e não de um tempo indefinido ou eterno. Sobre os trabalhos da exposição, pensamos que este conjunto seria mais adequado ao formato online por serem obras bidimensionais (uma escultura ou uma instalação perderiam muito no formato digital). E como você observou bem, sim, há uma escolha pelo papel (mesmo no vídeo), o que por sua vez toca num outro eixo central da exposição – a natureza. O papel é um material que vem da natureza e o seu uso nos trabalhos nos leva a uma relação mais íntima com natureza e com o orgânico, assim como os outros elementos presentes também apontam nessa direção – o minério de ferro, a casca de árvore, a casca do bambu, o carvão, as folhas da cerejeira e a casca da palmeira. A efemeridade ou a transformação são exploradas como um conceito na exposição como um todo (as cascas e as folhas que se soltam da árvore, o minério e o carvão que são matérias porosas, os elementos que são re-significados). Mas em relação à brevidade dos materiais penso que, a menos que o artista trabalhe com materiais como aço, bronze ou pedra, por exemplo, tudo está sujeito à ação do tempo. Até mesmo o bronze pode mudar de cor com o tempo, por ser um material vivo, e o aço pode oxidar. O papel me interessa também como o melhor suporte para o desenho e para a colagem. Todos os materiais que compõem os trabalhos da exposição foram empregados de forma que possam ter a sua melhor durabilidade, dentro de sua natureza.

Por último queria retomar o tópico da exposição online. Você já havia feito alguma? Elas trazem novas possibilidades e em alguma medida são bem estranhas, inclusive parecem se afastar do tom orgânico que as obras carregam. Sei que sua exposição foi originalmente montada na galeria e que a partir dela foi produzido o material (fotos, registros, vídeo). E sei também que está respeitando as políticas de isolamento social. Dito isso, foi uma questão ela ser apenas virtual? E uma questão de que tipo, também política?

Participei ano passado de uma exposição coletiva de vídeo online, curada pela Tanya Zimbardo e pelo Diego Villalobos (São Francisco, EUA). A exposição na Athena é a minha segunda exposição online e a primeira individual nesse formato. Não foi uma questão ela ser apenas virtual, por conta das circunstâncias atuais. Os trabalhos foram muito bem montados e fotografados pela Athena, e vi a exposição como uma oportunidade de reunir essas obras recentes e apresentá-las a um público de diferentes lugares, por meio da plataforma digital. É claro que nada substitui a fruição presencial de uma obra de arte, mas acho que o formato digital irá continuar a existir após a pandemia, paralelamente às exposições presenciais. Para mim foi importante reunir esses trabalhos numa só exposição, a fim de que o público possa ter uma compreensão do pensamento que atravessa a minha criação e perceba o conjunto da produção, tendo em vista que meus trabalhos não se pautam por uma unidade formal e sim conceitual. Sobre a opção pela exposição online ser uma questão política, eu diria que sim, também, pela urgência em mantermos o isolamento social até que a pandemia esteja controlada.

 

Laura Belém: O tempo é agora, tempo de espera
Galeria Athena, online viewing room
15 de abril a 22 de maio de 2021
Visitação disponível em galeriaathena.com

Laura Belém, Travessia, 2020. Cortesia Galeria Athena


Sobre a artista | Dentre as principais exposições individuais já realizadas destacam-se: 2018 – Porque olhamos a natureza num mundo conturbado (Celma Albuquerque Galeria de Arte – Belo Horizonte, Brasil); 2016 – História Curtas (Galeria Athena – Rio de Janeiro, Brasil); 2015 – Ilha Restaurante (Casa do Baile – Belo Horizonte, Brasil); Hoje tem Cine (Sesc Palladium – Belo Horizonte, Brasil); Anekdota (Capela Morumbi – São Paulo, Brasil); 2012 – The Temple of a Thousand Bells (York St Mary’s – York, Reino Unido); 2011 – A Outra Paisagem (Galeria Luisa Strina – São Paulo, Brasil).

Dentre as principais exposições coletivas estão: 2020 – A exposição invisível: uma viagem sonora pelo século XX (Culturgest , Lisboa, Portugal); Artistas se divertem (Praça Adolfo Bloch – São Paulo, Brasil) ; 2019 – 3º Anto: O Verso (Museu do Louvre Pau Brazyl – São Paulo, Brasil); 2018 – Com o Ar Pesado Demais para Respirar (Galeria Athena – Rio de Janeiro, Brasil); 2017 – Tempo Presente (Espaço Cultural Porto Seguro – São Paulo, Brasil); 2016 – Transparência e reflexo (Museu Brasileiro da Escultura – São Paulo, Brasil); A spear, a spike, a point, a nail, a drip, a drop, the end of the tale (Ellen de Bruijne Projects – Amsterdam, Holanda); 2014 – Limited Visibility (CAM Raleigh Contemporary Art Museum – Raleigh, E.U.A.); Frestas Trienial de Artes (SESC Sorocaba – São Paulo, Brasil); 2013 – Amor e Ódio a Lygia Clark, (Zacheta National Gallery of Art – Varsóvia, Polônia); 2011 – Viewpoint (Cisneros Fontanals Art Foundation – Miami, E.U.A.); 2010 – The more things change (San Francisco Museum of Modern Arts – São Francisco, E.U.A.); 2007 – VI Bienal de Artes Visuais do Mercosul (Porto Alegre, Brasil); 2005 – 51st Venice Biennale (Veneza, Itália); entre outras.


No topo: Laura Belém, Transmutação, 2018, detalhe. Cortesia Galeria Athena | Entrevista por e-mail por Júlia Paes Leme, abril de 2021

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