A partir de amanhã, 29 de agosto, as ruas do Rio de Janeiro serão tomadas por mais de cem lambe-lambes de 30 artistas diferentes. Idealizada pela Mul.ti.plo Espaço Arte, a ocupação O Real Resiste não tem um mapa ou local definido. Seu objetivo é pensar, em meio a uma sociedade divida e hierarquizada por classes, uma arte acessível a todos, como o texto de Maneco Müller (copiado abaixo), sócio da Mul.ti.plo e um dos idealizadores do projeto nos lembra. Todas as áreas da cidade serão contempladas, centro, zonas portuária, sul, oeste, norte, incluindo comunidades.
Ao todo participam 30 artistas, entre eles Arnaldo Antunes, Vergara, Walter Carvalho, Marcos Chaves, Cabelo, Raul Mourão e outros ainda pouco conhecidos como Elana Paulino (Favelagrafia, Santa Marta) e Josiane Santana (Favelagrafia, Alemão), com cartazes de 2 x 3 metros que despejarão ideias, desejos e gritos em fotografias, poesias, desenhos, grafias e pinturas.
O REAL RESISTE (texto do idealizador do projeto, Maneco Müller)
1 – Não se trata de, preguiçosamente, difundir a arte pelas ruas em busca do espetáculo. Mas de promover um gesto especialmente refletido para ocupar poeticamente a cidade. Essa é uma intervenção urbana em que todas as obras de arte foram pensadas e realizadas, num mesmo instante, com a mesma finalidade.
2 – Mostrar a cidade como um espaço expositivo de todas as suas origens e diversidades, de sua imensa vocação cultural. Linguagens, vivências, conflitos e procedimentos múltiplos. Ressaltar, portanto, que a pluralidade é a afirmação primeira do próprio projeto.
3- Há uma única forma honesta de se pensar a arte mais acessível a todas e todos (numa sociedade de classes) que é, em primeiro lugar, convocar a criatividade de cada um. Dar oportunidade de verdade. Sem exclusões, sem nenhuma exceção odiosa ou dissimulada. Sem hierarquias!
4 – As históricas feridas expostas tragicamente pela crise sanitária ensejam a valorização dos espaços degradados e o olhar atento ao abandono pandêmico, por exemplo, das nossas favelas. Por ela (favela) e seus artistas começamos o trabalho, expandindo depois para todo o Rio, inclusive convidando os nomes já consagrados pelo circuito.
5 – O REAL RESISTE não guarda parentesco com um olhar turístico tão comum aos dias de agora como mais um entretenimento. É um ato urgente e visceral de quem acredita no valor da arte como aliada crítica, (cri)ativa da vida. E o seu permanente pulso: a esperança.