Janelas para um colecionismo ativista, por Bia Morgado

23/10/2020 - Por ArtRio

A ArtRio convidou alguns pesquisadores e personalidades que estão vivendo ativamente o mundo da arte – inclusive nesse confuso 2020 – para pensarem com a gente, nos ajudarem a entender, e mostrarem suas visões e ideias sobre alguns artistas, obras ou a própria atualidade.


Em tempos de pandemia sanitária, que escancarou as desigualdades sociais e raciais, colapso ambiental e convulsão política, fala-se tanto em fins de mundo quanto em novo normal. Nesse cenário, surge a urgência de rever antigos padrões estruturados por um sistema social heteropatriarcal, branco, racista, LGBTfóbico, etnocída, colonial e burguês, que marcam também o sistema de arte.

Nas últimas décadas, tornou-se cada vez mais frequente a problematização da história oficial da arte, inventada e narrada pelo colonizador. Nesse sentido, muitas instituições vêm sendo questionadas sobre as assimetrias em seus acervos e começam a propor revisões, ainda que tardias. A cobrança por ações concretas levou o MoMA-NY, em 2019, a anunciar a reformulação de seu acervo para incluir trabalhos de artistas mulheres, afro-americanos, asiáticos e latinos. Recentemente, o MAM Rio passou a adotar a diversidade como um parâmetro orientador das políticas de contratação.

Se Hélio Oiticica, em 1967, já apontava a “tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos” como uma tendência da arte brasileira de vanguarda, hoje há cada vez mais artistas produzindo arte socialmente engajada. Mas para além da abordagem política, é preciso que essa tomada de posição se reflita na ocupação do mercado por obras assinadas por mulheres, negra/os, latina/os, lgbtqi+, gorda/os, indígenas e periféricas, que sempre produziram arte.

Encruzilhada, de Raphael Cruz

A medida em que são demandadas posturas éticas entre diversos agentes do circuito de arte, por que não solicitar um posicionamento também dos que possuem o privilégio de comprar arte em meio a uma crise econômica, social, étnica, racial e ambiental? É preciso ventilar as práticas do colecionismo contemporâneo a partir das urgências do nosso tempo. Para além de um ultrapassado e limitado narcisismo, um colecionismo privado consciente da realidade nacional e mais comprometido com a pesquisa, o pensamento crítico e o experimental do que com a decoração da casa. Considerar os dilemas éticos, estéticos e políticos relacionados ao ato de colecionar é estar na vanguarda.

Escrevo aos que podem adquirir arte no contexto pandêmico (esse cara não sou eu: pesquisadora, precarizada e não assalariada). Considerando que a esmagadora maioria desse grupo é formada por homens brancos – e na luta pela inversão dessa conta -, vou chamá-los de “possíveis colecionadores-aliados”.

Navegando pela plataforma da ArtRio Online, listei algumas possibilidades aos que desejam entrar para essa vanguarda e se engajar com novos valores éticos para a economia da arte brasileira. Sem sair de casa! Optei por explorar os estandes virtuais das galerias “instituicionais”, acreditando que apoiar instituições de arte, de museus a projetos experimentais, em um cenário de fragilidade como o brasileiro é em si um ato político. Nesse sentido recomendo um olhar atencioso generoso a todas as instituições participantes.

Museus como MAM de São Paulo e do Rio, oferecem obras a valores reduzidos, selecionadas por suas equipes curatoriais para incentivar novos colecionadores e gerar recursos para a instituição. Do mesmo modo, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage participa com a Coleção Amigo EAV. No caso da EAV, toda renda arrecadada com a venda das obras é revertida ao seu programa público de ensino. A Galeria Aymoré lançou tanto um programa para Jovens Colecionadores quanto um Clube de Colecionadores, que ajudará a manter o espaço ativo. Dedicado à experimentação em arte e educação, o SOLAR DOS ABACAXIS também oferece ótimas obras de artistas, com destaque para a estreia da bicha não binária max wílla morais, com dois trabalhos à venda. A novidade desta edição é o lançamento da HOA, uma galeria de arte online dedicada à arte contemporânea latino-americana livre de estereótipos.

A Plataforma 01.01, criada em 2019 por artistas e curadores africanos e brasileiros, segue como o principal destaque decolonial desta edição da ArtRio Online. Com a proposta de “reverter antigas rotas de comércio de escravidão em um circuito de intercâmbio cultural, promovendo maneiras justas de coletar e consumir arte”, estão à venda obras de 14 artistas que evocam novas narrativas para a arte.

A energia dos orixás se apresenta na pintura expressiva de Oxossi menino do baiano Anderson AC, na emocionante Oxum, esculpida em madeira pelo veterano Doidão da Bahia, de Cachoeira-BA, e na Encruzilhada pintada pelo jovem Raphael Cruz, do Complexo da Maré. A influência da espiritualidade ancestral também se manifesta na Guarita criada pela promissora estreante Gabriella Marinho, de São Gonçalo/RJ, na qual reproduz belas, populares e protetoras espadas de São Jorge em cerâmica esmaltada. A dimensão transcendente observada a partir da realidade da masculinidade de pedreiros no Mali é tema de Mãos Devotas, fotografia do sul-africano Thulani Rachia.

Guarita, de Gabriella Marinho

Em Pangeia, tríptico de granito com gravação à jato de areia realizada ao vivo pelo artista e escritor Yhuri Cruz durante a temporada de três dias de sua exposição-cena Farol Fun-Fun – inspirado nas histórias de Nanã e Oxalá -, no Museu da República, em 2019. Carioca de Realengo, Yhuri foi o último ganhador do Prêmio Reynaldo Roels. Sacrifício ritual é uma fotografia da série Kalunga, de Ana Beatriz Almeida, que questiona a passista como símbolo de identidade nacional e suas negociações entre a sociedade, o corpo da mulher negra, a espiritualidade e o Carnaval. A artista, co-fundadora da plataforma de arte 01.01, foi é curadora convidada da Bienal de Glasgow 2020 e também participa do Clube de Colecionadores do MAM com a foto-performance Onira.

Em tons vibrantes, as telas super coloridas de Poética cachoeirana – trípitico, de Marcos da Matta, do recôncavo baiano, comentam seu cotidiano da região e as condições de trabalho informal e precário a qual chama de “sobrevivencialismo”. Nas telas, vemos a imagem do próprio artista vendendo queijo assado, de Priscila vendendo trufas e de um vendedor ambulante com o rosto coberto por inúmeros isopores empilhados.

Poética cachoeirana, trípitico, de Marcos da Matta

A tela Suri, do paulistano Thiago Consp, faz parte de sua pesquisa sobre a pouco estudada etnia homônima do Vale Omo, região etíope nunca colonizada ou escravizada. Consp investiga similaridades entre a etnia e população de Perus, na periferia de São Paulo, onde grupo de trabalhadores, em situação análoga a escravidão, promoveram uma greve não-violenta de sete anos realizada entre os anos de 1962 e 1969. No rastro da valorização do empretecimento brasileiro, o artista Mulambö, de 25 anos, de São Gonçalo, retrata Clementina de Jesus, carinhosamente denominada “Rainha Quelé”, para a primeira imagem de sua série Fundamento. O artista, que realizou três individuais no RJ em 2019 vem produzindo uma arte orgulhosa da estética suburbana do Rio de Janeiro, e outros de seus trabalhos também podem ser adquiridos na feira online nos estandes da galeria Portas Vilaseca e no Programa Jovens Colecionadores da galeria Aymoré.

Embalando Mateus ao som de um hardcore é a potente série em que a artista e professora da Universidade Regional do Cariri/ CE, Renata Felinto apresenta imagens de notas fiscais e extratos bancários com saldo negativo acumulados durante os primeiros anos da criação de seus dois filhos sem nenhum auxílio do progenitor. Também com uma poética bastante singular e política, Micaela Cyrino usa serigrafia para imprimir a palavra SOROPOSITIVA em um delicado tecido de linho, como um mantra para mentalizar e vivenciar sua condição. A jovem artista, nasceu com HIV e é ativista pela saúde sexual e reprodutiva da população negra e HIV/Aids.

 

Soropositiva, de Micaela Cyrino

Alice – da série Alice e o chá através do espelho – Vila Autódromo/RJ é uma fotoperformance de Rafael Bqueer em sátira à personagem de Lewis Carroll, agora em versão LGBTQI+ não branca e paraense que passeia sorrateira por universos distópicos e causando estranhamento. Nesta série icônica, Alice possa em um dos principais símbolos da luta contra a política de remoções no Rio de Janeiro. Outras fotoperformances de Bqueer participam da feira online por meio do Clube de Colecionadores do MAM Rio e da C. Galeria. Há também uma escultura em ferro do renomado Melvin Edwards, artista norte americano de 83 anos, que tem ateliê no Senegal desde 2000. Boa sorte, primeiro dia, produzida em 2019, faz parte da histórica série Fragmentos Linchados, em que denuncia a violência contra as populações afro-americanas, politizando a arte abstrata com doses de realismo social.

Para além de uma responsabilidade social, adquirir obras desses artistas, não deve ser uma concessão, pois é impossível negar a qualidade desses trabalhos, que aliam investigações sociais urgentes a sofisticadas linguagens poéticas. Aos possíveis colecionadores-aliados: que novo mundo podemos construir?


Bia Morgado é pesquisadora em artes, professora e curadora independente, especializada nos escritos de Hélio Oiticica. Realiza pós-doutorado sobre “curadoria de experiências” no PPGCOM da Escola de Comunicação da UFRJ, onde leciona para a graduação. Foi visitante do Centro de Estudos Curatoriais da University of Essex, no Reino Unido, quando pesquisou nos arquivos da Whitechapel Gallery.

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