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Divertir-se como palavra de ordem, uma conversa com Marcelo Cipis sobre ‘Enjoy’

06/04/2021 - Por ArtRio

Já fui para a nossa conversa avisada que o artista Marcelo Cipis era “uma personalidade cativante” e que não podia perder essa oportunidade para conhecê-lo. Lá estávamos nós, no Zoom e meio sem graças (apesar de graça ser o que depois não vai faltar). Era nosso primeiro contato e começamos comentando há quanto ele está na sua galeria, Bergamin & Gomide, da qual é o primeiro artista representado, “desde agosto, setembro de 2019, nossa, vai fazer dois anos. A gente tinha programado uma exposição…”

Cipis – ou Marcelo, como acha que se lembra de ser chamado há mais tempo, ou desde que nasceu – está bem quarentenado. Mal sabia eu que nem ao ateliê ele está indo. E a exposição, essa exposição, a primeira individual do primeiro artista representado pela galeria, com data de abertura para hoje (6 de abril, dia seguinte de nossa conversa), “está abrindo, mas não está”.

São Paulo segue com sua fase vermelha a princípio até dia 11, e até lá e principalmente até haver certeza de segurança, a galeria, localizada nos Jardins, deve seguir fechada. Mas os planos seguem e hoje, virtualmente, já podem ser vistas fotos, lidos textos e seguida uma programação de conteúdo no Instagram para conhecer cada uma das obras. Mas talvez tudo isso só ajude a aumentar a expectativa, que já estava alta desde que Cipis aproveitou a oportunidade da conversa para conferir com sua colega de galeria que veio nos introduzir: “como vai a questão do som com as poesias da Angélica?”

Angélica é Angélica Freitas, poeta convidada para escrever o texto curatorial que, em vez de um texto, virou uma série de poemas. “Isso vai ser uma coisa,” fala Cipis, displicente, “na visitação presencial, você vai ter a possibilidade de ouvir os poemas que a Angélica Freitas escreveu sobre os meus trabalhos.” Eles detalham um pouco mais para mim: “O Marcelo leu esses poemas e gravou”, “Além de ver o meu trabalho, você vai poder ouvi-lo!”

O convite à poeta foi feito pela galeria mas Cipis, que a conheceu apenas nessa ocasião, parece animado: “Conheci a Angélica nessa oportunidade mas eu gostei de mais. Gostei porque ela tem uma coisa de bom humor, o que tem um pouco a ver com o meu trabalho, – bastante a ver com o meu trabalho! – e a gente teve uma química que na hora que eu a conheci e que a gente se falou, rolou uma coisa simultânea, de se vincular. Ela curtiu muito o trabalho também e escreveu um monte de poema.”

Cada poema é para um trabalho específico? “A maioria é sobre trabalhos específicos. Ela dá o título e fala, ‘a partir de’ indicando o trabalho, e alguns são mais gerais. Inclusive alguns que ela escreveu não entraram diretamente na exposição e estarão nas mídias sociais” Eu tinha visto alguns dos trechos no release – que por sinal está lindo e muito especial – elaborado com base em uma entrevista com Marcelo. De lá inclusive que soube da personalidade cativante e de como não poderia deixar de conhecê-lo.

“Mas pode me chamar de Marcelo mesmo” continua, introduzindo também algumas de suas obras: “Cipis veio assinando, comecei a assinar Cipis só. Você viu aquele trabalho que é uma cara que parece um feijão e que está escrito Cipis? Esse trabalho, que é o convite da exposição, é uma derivação de uma instalação que fiz na 21ª Bienal. Era um estande de uma multinacional fictícia que se chamava “Cipis Transworld, Art, Industry & Commerce”. Ao fundo, ela tinha um relevo de parede de um 1,80 m de altura com essa forma e escrito Cipis. O ‘C’ e ‘I’ no olho, ‘P’ no nariz e o ‘I’ e ‘S’. Era como se fosse uma alegoria da marca. A marca tinha um logo com as palavras escritas, essa era uma espécie de decoração de estande.”

E dessa obra derivou apenas para esse trabalho ou essa acabou virando uma ‘marca’ – usar seu nome de ‘formas criativas’? “De formas criativas surgiu mais tarde, em 2014, quando eu fiz alguns trabalhos que se referiam ao próprio engajamento no mercado de arte. Então eles falavam: ‘Marcelo Cipis Fine Arts’, ‘Marcelo Cipis Commercial Arts’, e era uma espécie de cartão de visitas que eu apresentava. Mas aquilo de colocar o nome foi em 1991.”

E um cartão de visitas não é tão diferente assim de um convite como foi feito agora. “Exatamente. E lá em 1991 era um trabalho muito conceitual, cerebral. Depois, em 1992, parti para uma pintura abstrata, que era nova para mim. Eu nunca tinha feito uma pintura abstrata na vida. Comecei a usar a pintura de uma forma mais pura, abstrata mesmo. E nessa exposição agora, Enjoy, tem uma série de pinturas de 1992 que são pinturas inéditas que eu fiz naquela época e nunca mostrei porque nunca houve oportunidade.”

“Elas eram um pouco sem conceito, mas tinham uma coisa em comum, o fundo meio chapado” E que ficou, não é? “E que ficou até hoje! E que de repente é uma marca, eu não sei.” Mas as cores mudaram um pouco também com esse tempo. Hoje, vendo as fotos das obras atuais da exposição, elas parecem mais ‘alegres’. “Vibrantes. Usando um vermelho puro, o fúcsia naquele ‘Estou Finlandês’. No caso desse trabalho eu estava em dúvida de que cor eu ia fazer o fundo e ai, andando na rua, eu encontrei uma flor caída de uma árvore – um Ipê, eu acho – de uma cor impressionante. Levei a flor para uma loja de tintas e comprei aquela cor.

Cortesia Bergamin & Gomide, São Paulo. Foto: Ding Musa

Cortesia Bergamin & Gomide, São Paulo. Foto: Ding Musa

Pulando um pouco todas as questões que eu tinha aqui planejadas, chegando no assunto dessa obra, não posso deixar de perguntar: Você já foi para a Finlândia? “Não, eu nunca fui para Finlândia.” Um pequeno intervalo para muitos risos. “Foi assim. [ainda em meio a risos] Eu fiz um desenho e eu não aguentava mais ser brasileiro naquele momento. Eu estava um pouco de saco cheio. Acho que você entende essa sensação.” (Todo brasileiro entente essa sensação) “Era um desenho de um homem sentado em uma cadeira do Alvar Aalto, um arquiteto finlandês, e escrevi ‘Estou finlandês’. Quer dizer, naqueles cinco minutos eu me senti um cara no paraíso e chamei esse paraíso de Finlândia. Comecei a ficar brincando com isso de ‘ah, estou finlandês’ e fazendo variações sobre o mesmo tema. Pesquisava palavras em finlandês no Google, via as fotografias, e coloquei nas obras a prefeitura de Helsinki, tem também o ‘Encontro em Helsinki’, tem ‘Sukat’ – que é meia em finlandês. E assim eu fui me divertindo. É um pouco aquela coisa do Manuel Bandeira, ‘Vou-me embora pra Pasárgada’: Vou-me embora para a Finlândia/ Lá sou amigo do Rei/ Tenho a mulher que quero na cama que escolherei.”

“É uma sensação de passagem, de transporte para uma realidade que é mais amena, que é mais receptiva, que é mais agradável, coisas que não se pode mais falar sobre o Brasil.” É, como o título da exposição tenta sempre nos lembrar, uma proposta para se aproveitar, enjoy. Aproveite. Divirta-se. E com esse convite um tanto quanto imperativo que se lê, em inglês, no vidro da entrada, que essa personalidade cativante transforma, com bom humor, uma ordem em uma proposta amigável com um quê, bem leve, de crítica social.

“Menos no clima.” Estou no Rio de Janeiro de regata, ele sem São Paulo com frio. “Como está o clima ai no Rio? Melhor que aqui em São Paulo?” E melhor que na Finlândia com certeza. “É. Na Finlândia faz muito frio. Acho que posso dizer então que ‘Estou brasileiro’, pelo menos falando sobre o clima.”

 

Enjoy, individual de Marcelo Cipis
Com poemas de Angélica Freitas
Bergamin & Gomide
6 de abril a 15 de maio de 2021
Temporariamente apenas virtual: bergamingomide.com.br


Marcelo Cipis. Cortesia Bergamin & Gomide, São Paulo. Foto de Vicente de Mello.

Marcelo Cipis. Cortesia Bergamin & Gomide, São Paulo. Foto de Vicente de Mello.

Sobre o artista | Com uma sólida carreira, o artista paulistano Marcelo Cipis (1959) transita por diversas linguagens como a pintura, desenho, colagem, instalação, escultura, entre outras. Formado em arquitetura pela FAU USP, inicia suas atividades como ilustrador editorial em 1977. Em 1982, vive uma temporada decisiva na Europa, quando visitas a diversos museus mudam o seu olhar e a sua relação com a pintura. De volta em São Paulo, realiza um acompanhamento de pintura com Dudi Maia Rosa. Em 1988, abre a sua primeira exposição individual na Galeria Documenta, também em São Paulo. Participa da 20a edição da Bienal Internacional de São Paulo (1989) com a sala coletiva “Arte em jornal” e, em 1991, participa da 21a edição com a instalação “Cipis Transworld, Art, Industry & Commerce”, onde cria um estande de uma empresa multinacional fictícia. Participa das 4a e 5a edições da Bienal de Havana (1991 e 1994). Como ilustrador ganha o Prêmio Jabuti em 1994, pela capa do livro “Como Água para Chocolate”, de Laura Esquivel, publicado pela Editora Martins Fontes. Cipis é um artista versátil – ainda que o seu principal suporte seja o papel e a tela, ele não se deixa limitar, sempre buscando nos materiais as suas múltiplas possibilidades e dando vazão à sua mente extremamente criativa. Desde os anos 2000, quando ganha o importante prêmio da Fundação Pollock-Krasner em Nova York, vem expondo as suas obras em galerias e instituições pelo mundo, como a exposição “Alface” em 2018, na galeria Mendes Wood DM, São Paulo. Em 2019, participa com pinturas da Série Drops na 14a Bienal de Curitiba. Atualmente Cipis é representado pela galeria Bergamin & Gomide, em São Paulo.


No topo: imagem do convite da exposição com a obra Cipis Face (da série Slices), 2020 | Entrevista por Júlia Paes Leme, abril de 2021

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