"Balé Literal – Laura Lima" Exposição Individual

D.E.F.E.N.E.S.T.R.A.R

Ato de atirar algo ou alguém violentamente pela janela (literal). Eliminar (por exemplo, politicamente) alguém, demitir expressamente, marginalizar, excluir (figurado).

Embora as etimologias pesquisadas para origem da palavra sejam divergentes, o ato aponta como referência para o uso do vocábulo o episódio ocorrido em 23 de maio de 1618, em Praga, conhecido como ‘Defenestrações de Praga’. Nessa ocasião, boêmios invadiram o castelo de Hradsin, interrompendo uma reunião entre comissários imperiais e deputados do Estado e, em seguida, lançaram dois comissários e seus secretários pela janela, impulsionando, na sequência, o acontecimento da Guerra dos Trinta Anos.

A prática recorrente do século XVII é retomada no final da segunda década do século XXI pela artista Laura Lima em Balé Literal (Literal Ballet).

Em defenestração ativa, tem-se – de acordo com lista de obras (em processo) lida pela artista de memória, ‘de cabeça’, recordadas na madrugada, anotadas, e repetidas em mesa de bar e transcritas aqui – cortina com alfinetes e gelo seco; candelabro de coxinhas; farrapos; bandeira LGBT (não sei quantas coisas); frase 1 (‘confiança é a balaclava’); frase 2; frase 3; frase 4; frase 5; toquinhos em chamas; pipa; um jumento; escultura; peixe 1; peixe 2; peixe 3; peixe 4; peixe 5; cocô; roupa de abelha; banner de foguete; copos de cachaça na bandeja; bandeira LULA LIVRE; roupa Laura & Modé; roupa Laura & Fernanda; trabalho branco com objetos que se mexem internamente; natureza-morta; natureza-morta do Bosch com formas geométricas vazadas que, com a luz por trás, é necessário focar a retina; pintura do Hieronymus Bosch (a ser trabalhada com a iluminadora Nina); talvez uma samambaia; Malevich preto (cruz preta); Malevich vermelho (cruz vermelha); alguns insultos; sardinhas; escada do Santos Dumont (não será possível a execução).

Antecedente histórico referencial para a defenestração proposta: cavalo atirado da escada que termina em queda; cena presente no filme soviético Andrey Rublev, de Tarkovsky (1966). Vagamente baseado na vida do pintor Andrei Rublev (que viveu aproximadamente entre 1360-1430), é creditado ao monge russo a liberação da pintura de ícones religiosos na Rússia em relação às tradições bizantinas da arte.

As defenestrações ativas de Balé Literal são vagamente baseadas em antecedentes históricos e lançam-se violentamente à dessacralização de obras e do espaço expositivo, em simultâneo, no sentido literal e figurado, duplo. Através de atos de queda, pausa e ascensão, obras defenestradas libertam-se das tradições arcaicas e confinadas da arte seguindo em direção ao uso e deleite do público da rua pública, em aberto, para apropriações livres. Pode comer.

Michelle Sommer

29.JUN - 30.AUG
A Gentil Carioca
Rua Gonçalves Lêdo 11 e 17 - sobrado

De 10:00 às 19:00